RESPOSTA À REPORTAGEM SOBRE AUTISMO DA BBC BRASIL

Lendo o texto do James Gallagher (BBC Brasil, http://www.bbc.com/portuguese/brasil-38990864) sobre as ‘pesquisas’ recentes em torno do diagnóstico precoce do autismo, constato, dentro do contexto de neurodiversidade, o óbvio: capacitismo, dó, penalização (mesmo que sutil) do diferente e neurossupremacismo.

Por isso que, às vezes, fico irritadiço, pois de novo equiparam-nos a animais domésticos dentro destas ‘pesquisas’. E muitas vezes, não somos consultados para saber se queremos ou não ser cobaias de tais pesquisas. Não interessa se é uma criança ou um idoso de 70 anos, quem decide sobre a saúde do autista é o próprio autista, sem intermediários.

Pois bem, sobre o texto em si, posso afirmar que é equivocado e viciado em achismos capacitistas, dada a despreocupação do autor em consultar os próprios autistas a respeito disso. É o velho vício dos neurotípicos em querer falar por nós, e em muitas ocasiões, quando não queremos que o façam. É a mesma coisa que ocorre dentro do feminismo, com relação à presença de homens: o roubo de protagonismo. Pois bem, posso citar alguns trechos para exemplificar o que digo:

“Acredita-se que, a longo prazo, possam surgir exames de DNA, aplicáveis a todas as crianças, capazes de identificar aquelas em que o risco de ter autismo é alto”

Eis aí uma grosseira distorção quanto ao sentido dado à palavra ‘autista’, pois afirma (erroneamente) que o autismo é uma doença de alto risco. Portanto, uma afirmação CAPACITISTA e HIGIENISTA.

“Com a doença diagnosticada cedo, é possível implantar antes terapias comportamentais –como treinar pais a interagir com o filho autista– em busca de resultados mais eficientes”

Como assim ‘doença’? Doença para quem? Pros manicômios, que teriam uma suposta justificativa para pedir interdição psiquiátrica de pessoas autistas em situação de colapso? E que terapia? A ABA, que não passa de uma animalização da pessoa autista, quando ela é adestrada (e obrigada) a se comportar como neurotípica, mesmo que a contragosto?

O texto “AS ARMADILHAS DE “SE PASSAR” OU NÃO POR NEUROTÍPICO”, escrito pela autista americana Kit Mead, traduzido para o português por Ana Gauz (disponível em https://autismoemtraducao.com/2017/01/18/as-armadilhas-de-se-passar-ou-na-por-neurotipico/) alerta para o perigo deste adestramento camuflado:

“Quando não “passamos” uma vez sequer, a sociedade nos relega ao porão em programas segregados nas escolas e em casas comunitárias. Você chora a perda de alguém a quem poderia ensinar de forma apropriada. Você perde qualquer sombra de respeito por eles.”

O texto também fala em ‘apoio’ às crianças autistas, mas que apoio? Dos manicômios, das clínicas fajutas e até de presídios? Será que eles esquecem que os autistas vão se tornar adultos e não podem ser tratados como crianças para sempre? Até quando vamos continuar sendo tratados como objetos?

Existem muitas coisas a serem repensadas. A apropriação da palavra ‘autista’ é uma delas.
Autistas, unamo-nos e reajamos às diabruras do sistema!

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